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“Pense no Haiti, Reze pelo Haiti. (Mas)O Haiti é aqui”
 
Terça, 02 de Fevereiro de 2010  
 

 

 

 

“Pense no Haiti, Reze pelo Haiti. (Mas)O Haiti é aqui”

                                                          Haiti, Gilberto Gil e Caetano Veloso

           

 

A menção à musica dos tropicalistas não é nova e com certeza deve ter sido usada a rodo pela imprensa nesses últimos acontecimentos. Insisto, entretanto, em usá-la pela sua significância tão oportuna. O terremoto do Haiti no dia 12 de Janeiro abalou e mobilizou o globo inteiro na esperança de ajudarem um país tão miserável que perdeu o pouco que haviam conquistado. Mas o que esse país de 27.750 km², menor que o estado de Alagoas, perdeu afinal? A capital do país Porto Príncipe foi devastada, nela moravam 2 milhões dos mais de 8 milhões de haitianos do país(Alagoas tem apenas 3 milhões de pessoas, Maceió tem menos de 1 milhão). A início imagina-se que as proporções do terremoto são as mesmas de um desastre na cidade de São Paulo, mas não são. São Paulo tem 11 milhões de habitantes, mais de cinco vezes a população atingida no Haiti.

 

Nesse ponto, você leitor, deve estar se perguntando como posso minimizar um evento de proporções gigantescas, e principalmente, por que. Bem, deixe-me continuar minhas comparações enquanto você pensa sobre isso. O Terremoto no Haiti atingiu magnitude 7 e até agora cerca de 170 mil pessoas foram dadas como vítimas do desastre natural e em torno de um milhão estão desabrigados. O Tsunami de 2004, entretanto, foi causado por um tremor de magnitude 9 e causou mais de 200 mil mortes em toda a costa asiática e até africana, alem de um milhão e meio de desabrigados, 15 países foram atingidos ao todo. Não bastasse isso o terremoto de 2004 causou mudanças no formato e no movimento da terra, que podem ter agravado as mudanças climáticas globais.

“Aonde você pretende chegar com isso?” Você deve estar se preocupando enfurecido. Apenas continue lendo. Enquanto 2 milhões de pessoas tenham sido afetadas pela natureza no Haiti, só nos três primeiros trimestres de 2007 6,6 milhões de pessoas foram afetadas por fenômenos da natureza num país da América do Sul. Consegue adivinhar qual foi? Você está nele nesse exato momento. Em 2007 o Brasil registrou 730 desastres em 23 estados até setembro, 146 mil pessoas ficaram desalojadas, e não enfrentamos nenhum terremoto, furacão ou vulcão por aqui. De fato os fenômenos climáticos que prejudicam a vida do Brasileiro são comuns e antigos: Secas e Enchentes ou enxurradas. Basicamente ou chove demais ou chove de menos. Independente de qual seja esses fenômenos causam perdas econômicas, sociais, de infra-estrutura e principalmente, de vidas. Ao passar dos anos os efeitos se mostram cada vez mais permanentes e assustadores. Em 2009, o Brasil foi o sexto país a enfrentar o maior número de desastres naturais. 181 pessoas morreram no Brasil por causa de chuvas, deslizamentos e enchentes. Esses números, entretanto, dão como “desastres” apenas 10 eventos no Brasil, número muito baixo se contabilizarmos eventos rotineiros, ou de temporada.

Começamos 2010 com um susto. Em plena virada de ano a natureza dava indícios de que deveríamos nos preparar melhor. Angra dos Reis e Praia Grande, destinos turísticos dos mais caros do país foram acometidos por deslizamentos semelhantes aos que acontecem em favelas por todo o país. Sua localização e seu “timing” foram quesitos para fazer algo bem comum no Brasil se transformar em uma tragédia e alerta ao governo. Foram 53 vítimas que não puderam conhecer o novo ano que pouco antes haviam comemorado. Há a previsão de que cerca de 12 mil famílias sejam desalojadas por conta das áreas de risco somente no Rio de Janeiro. No mesmo 1° de Janeiro em São Luiz do Paraitinga, a 182 quilômetros de São Paulo, o nível do rio que corta a cidade subiu três metros e meio e duas mil pessoas, 20% da população, tiveram que deixar suas casas. O centro histórico ficou destruído e o cenário era de desolação.

Lembram que a cidade de São Paulo tem cinco vezes a população de Porto Príncipe, no Haiti? Acontece que essa mesma cidade tem sido castigada pela chuva durante todo o mês de Janeiro e desde Dezembro do ano passado. A situação é tão grave que no Jardim Romano, na Zona Leste da capital, as ruas estão alagadas a mais de 50 dias e o nível de água só tende a crescer. As cidades do interior que se encontram no Circuito das Águas estão em alerta, as comportas de algumas represas do Sistema Cantareira foram abertas por não poderem segurar mais as águas. O efeito acontece em escala dominó, quando uma represa solta seu excesso o rio tende a transbordar, alagar cidades vizinhas e pressionar a represa seguinte que por sua vez acaba por dar vazão às águas, repetindo o processo em uma nova região. Mais de 20 mil estão desabrigados somente no estado de São Paulo.

A situação calamitosa também andou afetando outros estados como Minas Gerais, onde a cidade de Patos de Minas vem sofrendo constantemente com alagamentos, e Paraná, onde a chuva abriu uma cratera de 15 metros de profundidade na estrada que liga a cidade de Itararé, a 354 km de São Paulo, a Sengés, no estado do Paraná. O mais assustador é perceber que toda essa situação acontece aqui, todos os dias, e que esses números vêm de apenas um mês. A falta de estrutura para conviver com esses fenômenos é visível, e sua constância já tem dado a esses casos status de normalidade. E o governo onde estava? A situação de São Paulo já é antiga e embora sempre há a velha acusação aos governos e as promessas de soluções na época eleitoral, sucessor nenhum faz nada. Os famosos piscinões são ineficientes por serem em um numero ridiculamente menor do que o necessário. O lixo espalhado em vias públicas que acaba nos rios junto com a impermeabilização do solo são as principais causas de alagamento, problemas que cidades como Tóquio já resolveram com um combate sério àqueles que sujam as ruas, a situação aparenta ser irreal quando se percebe que as ruas da capital do Japão são extremamente limpas mesmo sem a presença de lixeiras.

“Estamos vivendo hoje um desequilíbrio climático que expõe as vísceras dos nossos problemas de infra-estrutura, trânsito e transporte com reflexos sociais e econômicos desastrosos. (...) Não adianta acusar o passado, mas enfrentar o presente. Soluções complexas levam tempo e temos a consciência de estarmos realizando o possível”. Palavras do prefeito de São Paulo, Kassab. Junta-se a ele o discurso do presidente Lula que convidou o prefeito a juntar-se a ele para definir soluções para as enchentes em São Paulo à época do lançamento do PAC 2 em março, prometendo dar um “presente” à São Paulo. União de forças para combater as enchentes paulistas com certeza é uma boa idéia, mas creio que até março os paulistanos e brasileiros em geral continuarão vendo suas vidas serem afetadas e destruídas, não pelos fenômenos naturais, mas pela falta de ação do governo, que teve pulso para enviar imediatamente 900 soldados ao Haiti e ajudas diretas de 30 milhões de reais, mas não se dispôs a procurar soluções imediatas enquanto às de longo prazo são planejadas.

O Governo federal, claro, não está pensando na situação humilhante dessas famílias que perdem tudo o que têm várias e várias vezes, sem condições de abandonar suas casas por não ter para onde ir. Os pensamentos de Lula e do resto do PT está nas eleições de Outubro, quando Dilma Rouseff pretende assegurar o reinado da estrela vermelha até 2014, ano da Copa. Dizem pelos bastidores de Brasilia que as enchentes (pra variar) viraram armas do PT na campanha contra José Serra, atual governador do Estado de São Paulo, então quanto mais o governador se afundar em problemas na atual gestão, melhor para a atual Chefe da Casa Civil.

Para acalmar os ânimos a Presidência da República notificou que 614 milhões de reais serão destinados para atender as vítimas das catástrofes no Brasil. Em relação ao Haiti, o montante liberado é de 375,95 milhões. Os planos são de que “o Ministério da Integração Nacional ficará com R$ 394 milhões para atender diretamente as vítimas e recuperar a infra-estrutura das áreas atingidas. Outros R$ 150 milhões serão direcionados ao Ministério das Cidades para a construção e a reconstrução de casas para pessoas de baixa renda afetadas pelas enchentes e deslizamentos. A pasta da Agricultura terá ainda R$ 70 milhões para a recuperação de pequenas estradas que escoam a produção rural e foram destruídas por enchentes.”

Em primeiro lugar devo ressaltar que a palavra que grifei vem com uma leve armadilha. De fato a maior parte dos afetados pelas enchentes são pessoas de baixa renda que vivem em favelas e morros, entretanto, elas não são as únicas atingidas pela enchente. Muitas família da classe média baixa e média também são afetadas e entretanto não terão ajuda do governo. Acontece que essas famílias afetadas também perderam suas casas, seus móveis e pertences, e até o carro do qual ainda vão pagar as prestações, querendo ou não. Essas famílias também precisam de ajuda, mas o governo adora fazer uma distinção específica de renda para realçar sua aparência populista e aproximar Lula do “Pai dos Pobres” Getúlio Vargas. Mas nem deveríamos nos preocupar tanto com isso, já que como sempre acontece (inexplicavelmente) no Brasil, apenas menos da metade dos recursos chegam de fato a serem utilizados, enquanto a outra metade se perde em algum lugar da grande burocracia gerada pela máquina pública.

Normalmente, quando o governo brasileiro é cobrado sobre obras ou ações sociais, a desculpa é quase a mesma: falta de verbas. Entretanto, quando questionado sobre o montante enviado ao Haiti(do qual apenas 30 mil serão realmente doados ao Haiti, os outros 345 mil serão divididos entre setores do governo que devem usá-los no auxílio do filho adotado) a resposta do presidente de Relações Exteriores do Senado foi enfática "Não devemos faltar neste momento (no Haiti). O Brasil tem condições financeiras de fazer esse apoio”. Perguntaria ao senhor Azeredo se o país não teria condições financeiras de direcionar esse apoio ao combate da violência nas capitais, ou a melhorar as condições de saúde dos brasileiros que são caóticas, quem sabe 375 milhões não pudessem ser aplicados ao Combate ao tráfico de drogas e armas, ou à proteção ambiental. Afinal, o país tem condições financeiras de fazer esse apoio, de preferência ao próprio Brasil.

O que mais me impressiona, de fato, é que R$ 600 mil serão destinados à área de inteligência da Presidência da República, que coordena um gabinete de crise sobre o terremoto. Eu entenderia se tivéssemos um gabinete de Crise para a Seca do Nordeste, ou para as enchentes no Sul-Sudeste, pois ambas ameaçam a estabilidade nacional. Um gabinete da Inteligência da Presidência da República para um Terremoto que aconteceu a milhares de kilômetros do território nacional é que não me parece explicável. Os estados Unidos sim têm realmente que se preocupar, se não reconstruírem Porto Príncipe uma nova leva de imigrantes ilegais invadirá o país e a secretária de Segurança Nacional dos EUA, Janet Napolitano já avisou que os haitianos ilegais serão enviados de volta pra casa sem hesitação. O país aliás, parece ser de fato mais esperto que o Brasil. Desde o desastre tem movimentado seus artistas e emissoras para arrecadar doações para o Haiti. A grande sacada é que o dinheiro a ser enviado não sairá dos cofres públicos, mas dos bolsos de americanos comuns que mesmo após passarem pela crise ainda mantém o ideal de protetores do mundo.

Os organizadores do evento "Hope for Haiti Now", que reuniu dezenas de celebridades internacionais nas emissoras dos Estados Unidos, disseram já ter arrecadado US$ 57 milhões (cerca de R$ 104 milhões) em doações para ajuda às vítimas do terremoto. De fato,  As doações, prometidas ou já obtidas em todo o mundo já somavam pelo menos US$ 2,02 bilhões, segundo cálculo da ONU em Janeiro. Mesmo assim a ONU continua pedindo doações, e agora com restrições, no Fórum Econômico de Davos, na Suiça, os representantes das Nações Unidas pediram que as doações sejam feitas em “dinheiro vivo e não mercadorias”. O Haiti tem se transformado em uma grande arrecadação financeira, onde o número de zeros na conta é extremamente importante, e como a corrupção não foi invenção brasileira (como alguns ainda acreditam), só mesmo Deus sabe para onde tanto dinheiro vivo vai, no fim das contas.

O Haiti já tem o mundo inteiro ajudando a reconstruí-lo, o Brasil não precisa manter-se como pai adotivo, já que foi sumariamente substituído pelo Tio Sam, ainda não temos calibre pra brigar de frente com o país mais influente do mundo, mesmo que seja por um pedaço de terra destruído que mais lembra os vários pedaços de terra destruído no nosso país. O envio de mais 1.300 soldados ao Haiti não é uma tentativa de ajudar o policiamento da área, segundo Vicenzo Puguese, porta-voz da Missão da ONU para a Estabilização do Haiti a situação está sobre controle desde o dia 21 de janeiro, e a segurança não os preocupa. O Brasil entretanto planeja manter no país 2.600 soldados, apenas para fazer frente ao exercito norte-americano e defender o seu pedaço. A situação do Haiti lembra muito a colonização da áfrica, quando os Europeus aproveitaram a falta de estabilidade e unidade do continente para dividi-lo ao seu bel prazer entre si, aproveitando de suas riquezas. A situação aparenta ser a mesma, sob as roupas brancas e as ajudas, há a disputa de influência e poder, o novo determinante da ordem mundial.

Espero que agora o senhor leitor tenha entendido porquê minimizar a tragédia do Haiti que abalou o mundo, porque bem ao nosso lado existem centenas de tragédias acontecendo. Elas podem não serem tão impactantes, nem ocorrem condensadas em um único dia, mas mais trágico é vê-las acontecerem todos os dias.  Ao senhor Lula um conselho, se pretende fazer propaganda ajudando pobres, afro-descendentes, marginalizados, miseráveis, com fome, sem saúde pública de qualidade, atingidos por desastres naturais, cercados de violência e criminalidade, sugiro ao excelentíssimo presidente que antes de olhar sobre o muro, veja dentro da própria casa a quantidade de Haitis que possui. Fica ao pernambucano, que já enfrentou seus próprios desastres,a sabedoria popular e religiosa: "Antes de apontar o cisco no olho do vizinho tire a trave que existe no seu."

 

Por; Pérola Cardozo Alves

Belo Horizonte - Minas Gerais

 

 
 
 
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Sábado, 08 de Maio de 2010 | 23:33  
jualysson cordeiro
O morcego da meia noite...
 
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